Sobre bilhetes e sonhos perdidos

by - 22.5.17

Não adianta lutar contra. Já tomei porres homéricos em botecos sujos pela cidade, já me esbaldei em baladas até o amanhecer, já me isolei por dias no meio da natureza em busca do meu eu interior. Tomei banho de mar, de ervas, de pipoca, de folha de aroeira e até de água benzida pelo papa. Conheci Júlias, Antônias, Cristinas e Marias... Mas bastou encontrar um bilhete seu perdido entre meus livros - que eu teimo em nunca terminar de ler - para que o coração caísse no fundo abismo que cavei na intenção de te esquecer.

Naquele pedaço de papel marcando uma página do Leminski, sua escrita de letras tortas se resumia a algumas poucas palavras, mas de uma simbologia inestimável. Tinha sabor de fruta madura colhida no pé, daquela bem doce, que não somente sacia a fome, mas acalenta a alma. Tinha o aroma de um campo de brancas gardênias, de sutil perfume a abrandar até o mais irrequieto dos corações. Era como uma orquestra de bem-te-vis invadindo os ouvidos, passeando na aurora do dia, com o descerrar de nossos olhos. Olhos que sorriam com o bilhete que marcava seu poema favorito, de onde um dia me dedicou aquele trecho. - "Basta um instante... e você tem amor bastante".

E, de repente, a nostalgia. Lembranças do que fomos e do que poderíamos ter sido. Aqueles sonhos interrompidos, planos não realizados, viagens que não saíram do papel. Brincávamos de sermos felizes. Brincávamos porque, de séria já bastava a vida. E felicidade é sinônimo de sorrisos, muitos sorrisos. De cócegas surpresas no meio da rua, de caretas durante as não raras discussões pela toalha molhada sobre a cama ou a calcinha pendurada no chuveiro. Até mesmo quando você se estabanava de rir no chão ao me ver imitar os personagens de sua série favorita – apesar que, até hoje, acho que fazia só para me agradar. Fazíamos de nossa vida um sonho bom, dispostos a sermos rainha e rei de nosso próprio destino.

Talvez, por ironia do destino, aquele bilhete que de tanta alegria me fez lembrar, me trouxe algumas lágrimas a lavarem meus olhos. Acho que o próprio Leminski quem um dia disse: - "A noite enorme, tudo dorme. Menos teu nome" - E assim, de tanto adormecer com seu nome acordado em mim, perdoe-me a incapacidade de seguir adiante neste momento... a gente não manda no coração, sabe?! Continuo aqui, vendo o mundo passar diante dos olhos, mas com o pensamento ainda em você.

-

Vitor Vilas Bôas
Professor de história e aventureiro de palavras nas horas vagas. Viciado em café, basquete (Go Pacers!!!), pizza de atum com catupiry e tudo o que possa trazer momentos de paz em meio ao caos cotidiano. Alguém que tem preferido andar devagar nesta vida, que é para apreciar com mais calma a beleza do caminho.
https://www.facebook.com/dialogos.vitruvianos
https://www.instagram.com/vitruvianos

Você pode gostar também

0 comentários