Romeu e Julieta

by - 5.4.17



Ela pede um texto, como quem pede o número 1 com batata média no Mc Donald's. Diz que pra mim é extremamente fácil fazer isso. Eu nego. Depois que a gente terminou, estou num relacionamento sério com a preguiça e só escrevo quando aquela voz na minha cabeça está me deixando maluco. Ela reclama. Diz que antes não precisava nem pedir e que uma foto bastava. Não nego. Se não a inspiração mais bonita, a mais gostosa ela é, sem dúvidas. Textos deliciosos como o beijo dela foram escritos nesses momentos de inspiração.

Ela provoca.

Eu sei onde isso vai nos levar e ela sabe que me tem nas mãos. Ela para. Pendurado no espelho o sutiã e, em frente a ele, uma menina fazendo a camiseta de camisola, deixando as coxas de fora, junto com um pedaço da calcinha. Eu encostei no batente da porta, enquanto ela me encara através do espelho.

— A parede não vai cair. Não precisa ficar escorando.
— Eu sei, menina. O problema não é a parede. Sou eu quem fico sem reação quando você faz isso, e preciso de um apoio.

Ela sabe que eu adoro quando ela me provoca assim. A lingerie é sempre preta. Aposta muito mais na desenvoltura do que na cor. Ela mistura a descrição com a sedução. Ela fica na ponta dos pés e com o bumbum empinado, pra pegar o cachorro de pelúcia no nicho. O nome que ela deu pro tal cachorro? Ágape. Uma das definições de amor.

Amor. É o que fazemos ali mesmo.

Ela empina de novo, mas dessa vez não é na intenção de alcançar algo. Minha mão invadiu o cabelo curto dela, se entrelaçando naquela mecha da nuca, enquanto ela armava e arqueava as costas. Ela coloca a minha camiseta, se aninha no meu peito e me proíbe de acender meu cigarro. Ela reclama da minha falta de amor próprio. Eu reclamo da falta que ela me faz.

Quando finalmente recupero meu isqueiro, perdido na bagunça da cama, ela me abraça por trás e me envolve com as pernas, enquanto alcança seu livro de cabeceira da vez. Aliás, outra vez. Ela ama Tristão e Isolda, mas, dos romances proibidos, estamos mais para aquele casal Shakespeariano que tem nome de doce de queijo e goiabada. A culpa é dela, eu avisei que era cilada.

Romeu deu uma bicada no veneno. Queria morrer para ontem. Eu acendo um cigarro sem pressa e curto o momento com a minha Julieta moderna, de cabelos curtos e afetos longos como as madeixas da Rapunzel e me apego à frase de Javier Velaza:

'Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida'.

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